Mau tempo

Enfrentando tempestades

Sempre é possível ser surpreendido em alto mar por uma tempestade, mas quem é do mar pode adotar algumas táticas  para enfrentá-la

O primeiro passo para administrar uma tempestade no mar é ajustar a área vélica, mas para onde se vai também tem grande importância. Evidentemente faz sentido escolher navegar em uma direção que evite o pior da tempestade ao mesmo tempo em que exponha  o mínimo possível o costado às ondas, situação que favorece o capotamento do barco (navegar com intuito de evitar o pior da tempestade é especialmente importante em tempestades tropicais e furacões). Como esses sistemas se movem ao longo de uma trajetória, criam-se a zona perigosa — onde o vento sopra contra a trajetória — e o lado “navegável” — onde o vento sopra na direção dela.

Infelizmente não há uma regra geral para achar o melhor rumo para todo barco. As características da embarcação, a “mão” do navegador, bem como a condição das ondas e dos ventos, todos esses fatores contribuem para que essa equação seja única – e a sua experiência pessoal é que vai otimizar o conjunto.23

Se a tripulação é numerosa e capaz o suficiente para estabelecer um sistema efetivo de turnos, certamente a opção de continuar com área vélica reduzida – até com uso de velame de tempestade — é a melhor, principalmente se seu rumo levar o barco para longe do sistema meteorológico. Mas pode chegar o momento em que continuar não é mais uma opção. Por exemplo, se sua tripulação ficou exausta ou as condições do mar pioraram a ponto de impedir uma navegação segura. Um barco sendo castigado por uma tempestade — e com a previsão de piora — pode exigir uma tomada de decisão mais drástica.

As opções são várias, desde aquartelar o barco, navegar com as ondas, navegar com as ondas arrastando um drogue ou usar uma âncora de capa, práticas comprovadas e que descreveremos  neste artigo.

Elas são amplamente conhecidas, mas nem todas servem para todas as situações ou barcos. Seja qual for a que você decidir usar depois de fazer uma análise cuidadosa de sua situação, faça um plano para sua implementação. O “timing” é tudo, portanto não espere que as coisas piorem para agir.

Tentativa e erro e, acima de tudo, muita prática, ajudam. Em um dia com ventos de força 6 (22 — 27 nós) saia e pratique o içamento de suas velas de tempestade.

Pratique o aquartelamento e navegar com as ondas. Experimente lançar o drogue ou a âncora de capa, se acha que estas serão suas opções no caso de enfrentar uma tempestade. Veja como você e seu barco reagem em cada uma das táticas. Treinando antecipadamente seu uso, você aprenderá muito sobre quais funcionam e em que condições, o que é muito importante na hora de tomar as decisões.


Aquartelar o barco

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Essa é um tática de enfrentar tempestades para a maioria dos veleiros e, em especial, para aqueles equipa- dos com buja de tempestade e vela de tempestade triangular. A ideia é dar um bordo, porém deixar a buja aquartelar, ao mesmo tempo em que se folga a mestra, sem que ela planeje. A seguir, o leme é comandado, para ficar paralelo à buja. Na posição de aquartelado, o barco movimenta-se simultaneamente para frente e para o lado. A componente para a frente é intencionalmente diminuída quando se folga a mestra e ao mesmo tempo o movimento para sotavento é incrementado. A quilha “estola”, gerando um vórtex de turbulência na água a barlavento. Há quem diga que essa turbulência ajuda a evitar que as ondas quebrem. Pode ser. O que tenho certeza é que a manobra reduz o movimento a bordo, como se alguém tivesse “desligado a chave” da tempestade. Em alguns Sloops mais modernos, cujo mastro fica posicionado mais próximo à proa, podem executar essa manobra só com a mestra.

Muitos velejadores acham que conseguem ficar mais apruma- dos com o vento se, em vez da vela triangular de tempestade, usarem a mestra rizada. Além disso, barcos equipados com lemes modernos, cuja relação profundidade/largura é maior, requerem ângulos de leme menores que os tradicionais. Devido à eficiência desse tipo de leme, pode até ser que o barco consiga completar a cambada, mesmo com a buja aquartelada. Descobrir a relação ideal de velas e ângulo do leme requer um pouco de tentativa e erro, mas, quando a manobra é bem executada, ela permite à tripulação deixar a es- tação de comando e se dedicar a se alimentar e/ou descansar.

Quando for executar a manobra, planeje qual bordo deixará o barco menos paralelo às ondas predominantes. Isso reduzirá a possibilidade de uma onda de período mais curto quebrar em cima do barco e virá-lo. E, claro, deixe o barco em uma posição que lhe permita “caranguejar” por um bom tempo, antes de encontrar algum obstáculo.


Navegar empopado

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Os antigos pescadores de Nantucket, no Maine, quando voltavam dos Grand Banks sob um forte vento Leste em suas escunas tipo Gloucester, tinham um mantra para navegar empopado: “Squaring the Sails and Scudding for Squam”. Ou seja, colocar as velas em um ângulo reto, e voar em direção à Squam, uma das praias da famosa ilha. E a mesma tática pode ser usada em qualquer situação de tempestade em alto mar, quando for conveniente,  do ponto de vista do destino a ser alcançado, velejar a favor dos ventos e das ondas.

A primeira pergunta que vem à cabeça numa situação dessas é: que velocidade é ideal para velejar empopado? A resposta mais loquaz, porém honesta, é: use tanto pano quanto o seu barco puder suportar com segurança nessa condição. Quando houver poucos tripulantes a bordo, usualmente ela é determinada pela eficiência do sistema de leme de vento. A maioria deles começa a ficar “esquisito”, à medida que o barco se aproxima da velocidade do casco. Os grandes veleiros de competição, com timoneiros experientes e em bom nú- mero, não estão sujeitos às limitações
dos lemes de vento, porém devem estar acostumados a administrar a transição entre o planeio e a velocidade de deslocamento.

Quanto mais altas as ondas, mais isso exige do barco e da tripulação, aumentando bastante o risco de en- terrar a proa na própria onda ou na que vem à frente.

Veleiros de regata modernos administram muito melhor o planeio que barcos de cruzeiro ou regata mais antigos, graças ao seu desenho, em que a popa é bastante larga, e seus lemes grandes e profundos. Para esses bar- cos, o planeio pode ser a regra, deixando de ser a exceção. Com o aumento da velocidade aumenta também a manobrabilidade, reduz-se o vento  aparente e faz-se grande progresso em direção ao destino. De fato, esses veleiros ligam o “modo planeio” du- rante grandes trechos, com excelente autoridade sobre o leme e com pouca ou nenhuma tendência de enterrar a proa. Dependendo das condições de vento e da qualidade da tripulação, têm possíveis singraduras (distância navegada em 24h) de 300, 400 e até mais de 500 milhas náuticas.

Por muitas e boas razões, esse lado emocionante da vela oceânica deve ser reservado aos quebradores de recordes profissionais e deveria ter a etiqueta “não tente fazer isso em casa”! Tripulações velejando nessas condições estão permanentemente a um descuido de bater as cruzetas na água. Se isso ocorrer, a velocidade do barco de cerca de 20 nós se transforma imediatamente em um aumento do vento aparente entre 15 e 20 nós, no exato momento em que a tripulação está se recuperando da enterrada.

Em algum ponto, o aumento da velocidade do vento e da altura (e inclinação) das ondas, todo e qualquer veleiro começa a não ter condições de navegar com segurança e assim, mesmo o mais ávido dos veleiros de competição deve pensar em diminuir a velocidade e a pensar em sua sobre- vivência.

Os cruzeiristas têm de conhecer os limites, tanto de seus barcos quanto deles próprios.  Uma das mais importantes informações que o proprietário de um barco necessita ter é a velocidade com que pode navegar em segurança em uma tempestade. A resposta varia bastante e muitas vezes depende da facilidade com que o barco é controlado pelo piloto automático, leme de vento ou timoneiro.

Uma empopada com o vento a exatos 180 graus não é ideal; melhor é fazer com que o vento entre no quarto de popa e evite descer as ondas exatamente na perpendicular. As ondas na maioria das vezes não estão alinhadas com os ventos, porque se movimentam com maior velocidade que os sistemas meteorológicos. É comum você estar sendo atormentado pelos ventos de um sistema de baixa pressão, enquanto as ondas criadas por outro é que te lançam para ambos os lados.

Quase todos os velejadores cruzando o Oceano Índico em direção a Durban, na África do Sul, são confrontados com ventos vindos do leste a 30 nós enquanto surfam as ondas geradas pelos ventos alísios e, de repente, se deparam com outras entrando diagonalmente, cuja origem está nos cafundós dos Mares do Sul. A sensação é a de estar numa empopada, porém batendo bastante, ao mesmo tempo em que as toneladas de água invadem o convés pela proa e exigem que todas  as gaiutas, vigias e outros pontos de entrada potenciais de água estejam bem fechados e travados.

Na maioria das vezes a direção de deslocamento das ondas e do vento não difere em mais de 20-30 graus. No entanto, essa modesta diferença pode ser significativa numa empopada. O diagrama da página 40 mostra como é importante escolher qual o bordo mais indicado para velejar nessa situação. O barco com o vento vindo de  bombordo está com seu eixo longitudinal na direção  de deslocamento das ondas, enquanto o barco com o vento entrando por boreste navega com o costado exposto à ondulação, o que é muito mais perigoso.

A partir de certa velocidade, o barco começa a aumentar a oscilação em torno de seu eixo vertical. Mesmo com muito esforço do timoneiro (ou dos sistemas de pilotagem automatizados) para reduzi-los, a proa começa a se movimentar como um pêndulo em torno do rumo desejado. Quando isso ocorre, é hora de reduzir ainda mais a área vélica, para resgatar a dirigibilidade e controle, mesmo que se perca um pouco de velocidade.

Se já estiver com as velas de tempestade e o barco estiver próximo à velocidade de casco, é o momento de pensar em alternativas, caso o tempo piore ainda mais. Uma das possibilidades é “velejar” só com o mastro e, para evitar que a proa do barco oscile de um lado para outro, arrastar um drogue pela popa. Note, porém, que muitos velejadores veteranos hesitam em prescindir de suas velas de tempestade, já que elas têm também um efeito estabilizador no barco.

Uma empopada para escapar de uma tempestade requer uma ampla porção de oceano desobstruído a sotavento, que todas as gaiutas, vigias e portas de entrada estejam fechadas, travadas e que suportem o impacto de ondas quebrando para dentro do barco.


Drogue a reboque

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Rebocar um drogue é um recurso usado para diminuir a velocidade de um barco e aumentar sua estabilidade direcional. Um drogue não é uma âncora de capa, mas sim projetada para ser usada com o veleiro navegando sem o uso de velas. A carga no cabo de reboque é considerável, portanto use um dispositivo de amarração que utilize ambos os cunhos na popa e garanta que os cabos não enrosquem ou se desgastem em alguma estrutura do barco. A resistência desses cabos deve ser igual ou superior ao cabo da âncora principal do barco.

Normalmente essa configuração é um dos últimos recursos utilizados por uma tripulação em uma tempestade violenta. Ela amortece as oscilações da proa e alinha o eixo longitudinal com a direção de deslocamento das ondas, tornando o barco menos suscetível ao capotamento.

A Hathaway, Reiser & Raymond produz um modelo chamado de “Galerider” (literalmente: cavalgador de tempestades), que é uma cesta tecida em fitas de náilon em volta de um cabo de aço circular. O cabo de reboque é fixado em um destorcedor conectado por uma serie de cabos à “boca” da cesta. Quando a reboque, a água passa através da trama do equipamento, como se fosse um funil, criando um arrasto considerável. Se adequadamente dimensionada para o barco, reduz a velocidade do conjunto para cerca de 3-4 nós.

O drogue serial da Jordan tem uso similar, só que usa múltiplos cones interconectados por um cabo. Seu fabricante afirma que essa configuração é menos suscetível a ser desestabilizada por uma sucessão de ondas quebrando e que a carga é distribuída de forma mais uniforme e gradual, com as on- das ultrapassando o barco. Um drogue em série também tem a vantagem de ficar submerso mesmo nas mais ad- versas condições de vento e de mar.


Âncoras de capa
Há muitas estórias envolvendo âncoras de capa, tanto a favor quanto contra seu uso. Esse equipamento, que parece com um para-quedas de náilon submerso, é amarrado através de um longo cabo à proa. Sua efetividade depende muito do tipo de barco, sendo uma boa opção de administrar tempestades para alguns, mas não para outros.

Confiar nessa tática de administrar tempestades é mais ou menos como lutar boxe ficando cara a cara com o oponente, em vez de gingar a uma certa distância, desviando de seus ataques. Ele não vai conseguir aplicar golpes com força, mas vai acertar com frequência. Ou seja, assim como na luta com nosso boxeador imaginário, o barco deverá ser forte o suficiente para receber os impactos.

Executada corretamente, essa técnica alinha o barco com a direção de movimento – e quebra – das ondas, deixando-o na posição mais estável possível para a situação e com a menor resistência ao avanço das águas. É mais adequada para veleiros pesados e com quilha longa, assim como para catamarãs, que possuem boa estabilidade longitudinal e tendem a ficar alinhados com a direção inicialmente intencionada. Em contraste, veleiros leves e com quilha profunda e afilada tendem a se comportar como animais de estimação amarrados a uma coleira, dançando para frente e para trás e se agitando para todos os lados – ficando, inclusive, de lado para ondas inclinadas, uma situação que, como já vimos, pode ser fatal para o barco. Se o seu barco oscila até quando está apoitado, certamente não é adequado para usar essa tática.

Já os velejadores de barcos multi-casco consideram a âncora de capa uma ferramenta muito útil, e seu uso correto pode ajudar a manter o casco com o lado certo dentro d’água. Frequentemente discute-se nesses círculos se o mais adequado é lançar a âncora de capa da proa ou da popa desse tipo de barco. Os que argumentam que é melhor lançá-la da popa justificam dizendo que assim há me- nos estresse nos lemes.  Porém, como a maioria dos barcos dessa categoria possui grandes portas de correr e, às vezes, estruturas rígidas para cobrir o cockpit e que não foram projetadas para resistir a grandes pancadas de água, usar essa tática é dar sorte ao azar. Aposte em lançar a sua âncora de capa da proa e confie que os lemes resistirão a um pouco mais de stress.


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